O rastreamento do câncer de próstata não deve mais ser julgado pelos limites do PSA isolado, base de críticas históricas que marcaram o debate nas últimas décadas. Dados apresentados no Congresso Europeu de Urologia de 2026, em Londres, mostram que a incorporação de novas etapas ao processo diagnóstico reposiciona o papel do rastreamento prostático e aproxima seus resultados daqueles observados em programas consolidados, como o de câncer de mama.
“O rastreamento moderno do câncer de próstata não pode mais ser avaliado apenas pelos defeitos do PSA isolado de décadas atrás. Quando incorporamos estratificação de risco, ressonância magnética e critérios mais rigorosos para indicação de biópsia, o cenário muda de maneira significativa e passa a oferecer um equilíbrio muito mais favorável entre benefícios e danos”, afirma, ao analisar o estudo, o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica e coordenador dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da BP.
Os autores compararam 39.392 homens submetidos ao PSA inicial no estudo PROBASE com mais de 2,8 milhões de mulheres rastreadas por mamografia no programa alemão, coordenado pelo German Cancer Research Center. Os dados indicam que o fluxo que combina PSA, estratificação de risco e ressonância magnética gera mais resultados falso-positivos do que a mamografia, entre 37% e 42% contra cerca de 10%, mas mantém proporção semelhante de encaminhamento para biópsia. Isso ocorre porque o modelo utiliza filtros clínicos e radiológicos antes da decisão invasiva, reduzindo procedimentos desnecessários. “O ganho não está no PSA isolado, mas no pacote organizado que inclui triagem por risco, uso de ressonância e biópsia mais seletiva. É esse conjunto que permite melhorar a precisão e evitar intervenções desnecessárias”, diz Guimarães.
Outro dado relevante é a maior capacidade de identificar tumores clinicamente significativos. As biópsias no rastreamento prostático detectaram esse tipo de câncer em 50% a 68% dos casos, enquanto no rastreamento mamário esse percentual gira em torno de 10%. A proporção de cânceres invasivos detectados, no entanto, é semelhante entre os dois modelos. “O que muda aqui é a eficiência da jornada diagnóstica. Quando bem estruturado, o rastreamento de próstata consegue direcionar melhor quem realmente precisa de biópsia e aumentar a chance de encontrar doença relevante”, afirma.
O estudo também mostra maior detecção de tumores não agressivos na próstata. Nesse contexto, a vigilância ativa se torna peça central para evitar o excesso de tratamento (overtreatment). “A identificação de tumores indolentes não deve ser automaticamente interpretada como dano. Hoje temos a possibilidade de acompanhar esses pacientes com segurança e intervir apenas quando necessário, o que reduz significativamente o impacto negativo do rastreamento”, diz.
Apesar dos avanços, os próprios autores reconhecem limitações importantes, já que a análise compara um ensaio clínico com um programa populacional estabelecido, além de envolver doenças com comportamentos biológicos distintos. “É um estudo provocativo e relevante, mas que exige leitura cuidadosa. Ele não resolve sozinho a discussão sobre política pública, especialmente em países com grandes desigualdades de acesso, como o Brasil”, afirma Guimarães.
O debate ganha mais consistência quando incorporado a evidências de longo prazo. O seguimento de 23 anos do estudo europeu ERSPC, publicado no The New England Journal of Medicine, demonstrou redução relativa de 13% na mortalidade por câncer de próstata, com uma morte evitada a cada 456 homens convidados para rastreamento. O estudo reúne centros acadêmicos e instituições de pesquisa de diversos países europeus, incluindo universidades e hospitais na Holanda, Suécia, Itália, Bélgica, Espanha e Suíça.
“Hoje já não é correto afirmar que o rastreamento de próstata não reduz a mortalidade. O benefício existe, mas é moderado, de longo prazo e depende diretamente da forma como o programa é estruturado”, diz. No Brasil, a aplicação desses achados enfrenta desafios adicionais. A incorporação de ressonância magnética, a organização de fluxos assistenciais e a consolidação da vigilância ativa ainda são desiguais no sistema de saúde.
“Não basta importar a conclusão do estudo sem importar a estrutura que a sustenta. Sem acesso adequado a diagnóstico por imagem e sem protocolos bem definidos, o risco é repetir os problemas do rastreamento oportunístico clássico”, afirma. Para o especialista, os dados apresentados em Londres não encerram o debate, mas tornam inevitável sua atualização. “O que esse estudo faz é tirar o rastreamento de próstata do campo da incerteza e colocá-lo no campo da gestão de risco. A discussão agora não é mais se devemos rastrear, mas como fazer isso de forma organizada, eficiente e adequada à realidade de cada sistema de saúde”, conclui Guimarães.