Brasil registra recorde de mulheres abrindo empresas, mas especialistas alertam que o crescimento sustentável ainda esbarra em dificuldades de gestão, planejamento e tomada de decisão. CEO da Click Conexão, Vitória Normandia, explica por que fortalecer a base do negócio pode ser mais importante do que investir em marketing.
O empreendedorismo feminino nunca esteve tão em alta no Brasil. Dados do Sebrae, elaborados a partir de informações da Receita Federal, mostram que somente em 2025 mais de 2 milhões de pequenos negócios foram abertos por mulheres, o maior número já registrado no país. O movimento confirma a força feminina na economia e evidencia uma mudança importante no perfil das brasileiras, que cada vez mais enxergam no empreendedorismo uma alternativa de autonomia financeira, realização profissional e geração de renda.
Mas abrir uma empresa é apenas o primeiro passo, porque o grande desafio é fazê-la crescer.
Apesar do aumento no número de novos negócios, milhares de empreendedoras ainda enfrentam dificuldades para transformar suas empresas em operações estruturadas e financeiramente sustentáveis. Levantamento realizado pelo Sebrae Minas revela que os obstáculos vão muito além da conquista de clientes. Marketing, organização financeira, planejamento estratégico, inovação e excesso de responsabilidades aparecem entre os principais desafios da rotina empresarial feminina.
Segundo a pesquisa, 56% das empreendedoras afirmam ter dificuldades relacionadas ao marketing. Em seguida aparecem a gestão financeira (49%), o planejamento e a definição de metas (39%) e a inovação (38%). O estudo também chama atenção para outro dado: quase metade das entrevistadas relata viver uma sobrecarga mental provocada pela necessidade de administrar simultaneamente empresa, família e vida pessoal.
Para a estrategista de negócios Vitória Normandia, CEO da Click Conexão, esses números ajudam a explicar uma realidade observada diariamente entre pequenas e médias empresas.
"É muito comum a empresária acreditar que o negócio não cresce porque falta marketing. Mas, na maioria das vezes, quando aprofundamos o diagnóstico, descobrimos que o problema está muito antes disso. Faltam clareza sobre o posicionamento, processos comerciais organizados, definição de prioridades e segurança para tomar decisões."
Na avaliação da especialista, o marketing costuma ser responsabilizado por resultados que dependem de uma estrutura empresarial muito mais ampla.
"O marketing é uma ferramenta poderosa para acelerar o crescimento, mas ele potencializa aquilo que a empresa já construiu. Quando a base está fragilizada, qualquer investimento em divulgação tende a gerar frustração. Não porque o marketing não funciona, mas porque ele foi utilizado para resolver um problema que pertence à gestão."
Essa percepção foi construída ao longo dos anos de atendimento a empresas de diferentes segmentos. Segundo Vitória, um padrão passou a se repetir com frequência: empresários que procuravam soluções para aumentar as vendas, mas que, após um diagnóstico mais aprofundado, descobriam gargalos na gestão, na definição da proposta de valor, no processo comercial ou até na forma como conduziam o próprio negócio.
Método BASE
Foi dessa experiência prática que nasceu uma metodologia estruturada em quatro pilares: diagnóstico, para identificar os verdadeiros desafios da empresa; atitude, voltada ao fortalecimento da postura empreendedora e da capacidade de decisão; sentido, que trabalha posicionamento, propósito e direcionamento estratégico; e execução, etapa dedicada à implementação das ações necessárias para transformar planejamento em resultados.
Segundo Vitória Normandia, a busca por esse tipo de orientação tem crescido à medida que as empreendedoras compreendem que crescer exige muito mais do que presença nas redes sociais.
"O maior patrimônio de uma empresa não é apenas o produto ou o serviço que ela oferece. É a capacidade da empresária de entender o negócio como um todo, tomar decisões conscientes e construir processos consistentes. Quando essa base existe, o marketing deixa de ser uma tentativa de salvar a empresa e passa a impulsionar um crescimento que já começou dentro da gestão."
Essa experiência deu origem ao Método BASE, utilizado por Vitória nos processos de diagnóstico e desenvolvimento estratégico de empresárias. A metodologia também servirá de fundamento para uma mentoria em grupo lançada pela Click Conexão, reunindo mulheres que buscam fortalecer seus negócios antes de ampliar investimentos em comunicação e vendas.
BOX | Empreendedorismo feminino em números
Os desafios por trás do crescimento
• Mais de 2 milhões de pequenos negócios foram abertos por mulheres no Brasil em 2025, o maior número da série histórica do Sebrae.
• As mulheres já representam cerca de 42% das novas empresas formalizadas no país.
• 56% das empreendedoras apontam o marketing como uma das maiores dificuldades da gestão.
• 49% enfrentam desafios relacionados à organização financeira.
• 39% afirmam ter dificuldades para planejar o crescimento e estabelecer metas.
• Quase 50% convivem com sobrecarga mental ao conciliar empresa, família e vida pessoal.
Fontes: Sebrae Nacional e Sebrae Minas, com base em dados da Receita Federal e em pesquisa sobre empreendedorismo feminino.